Sexta, 18 Maio 2018 23:00

'Soft power' da cultura também é arma de países colonizados, diz autor Destaque

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[RESUMO] O cientista político Joseph Nye cunhou o termo ‘poder suave’ para se referir à conquista de territórios por meio da língua, do esporte, da religião e de outras formas culturais. Nessa entrevista, Franthiesco Ballerini, autor de livro sobre o tema, afirma que países normalmente tidos como colonizados também exercem esse tipo de dominação.

No final dos anos 1980, nos últimos capítulos da Guerra Fria, o cientista político americano Joseph Nye estava convencido de que o “hard power” (poder duro) —conceito que inclui pressão política, sanções econômicas e força militar— não havia permitido que as duas superpotências do século 20 realizassem suas promessas de conquista por meio da disputa bélica.

O autor cunhou, então, o termo “soft power” (poder suave) para se referir ao tipo de dominação que passou a ser corriqueira nas disputas mundiais por território: não mais nos campos de batalha, mas sim no âmbito da língua, do esporte, da religião e da cultura em geral.

O conceito despertou o interesse do jornalista Franthiesco Ballerini, autor de “Poder Suave” (Summus, 2017), que passou a pesquisar o uso dessa estratégia por países normalmente tidos como colonizados.

Por que escrever um livro sobre o “soft power”? 

O filósofo francês [Pierre] Bourdieu já havia tratado do poder invisível que permite a obtenção de algo pela mobilização exercida com variáveis como arte, ciência e religião. Eu me deparei com o conceito de Nye, que fala da habilidade de conseguir o que se quer pela atração e não pela coerção: a língua, o esporte, o entretenimento como ferramentas mais eficientes do que sanções e intervenções militares.

Ninguém duvida do poder mágico de Hollywood, que mobiliza o mundo por meio de produtos que disseminam hábitos de vida, conceitos e valores.

O comentarista político Ben Stein já havia declarado, em 1980: “As pessoas aqui na Casa Branca acham que têm poder. Estão enganadas. As pessoas que fazem filmes é que têm poder”. Passei, então, a pesquisar quais seriam os poderes suaves culturais mais importantes.

Seu livro traz outros exemplos menos óbvios, como Bollywood. 

Bollywood não é somente a maior fábrica de entretenimento da Índia como também seduziu rincões mundiais fechadíssimos no século 20.

Quando o talibã caiu no Afeganistão, em 2001, o primeiro-ministro indiano viajou para Cabul para dar boas-vindas ao governo interino. No avião, em vez de armas ou comida, levou milhares de filmes e CDs com produções indianas, que foram recebidos com entusiasmo pela população afegã.

homem passa em frente a cartazes
Vendedor de chá indiano diante de stand na feira internacional de livros de Nova Déli (Índia). - Manan Vatsyayana/AFP

A Índia vende 3 bilhões de ingressos por ano ao redor do planeta. Nos países anexados pela antiga União Soviética, a população das grandes cidades fazia fila para ver os filmes indianos, com suas danças e músicas bem diferentes da propaganda ideológica do cinema soviético. Stálin proibia a exibição de filmes indianos, mas Khrushchev permitiu até um festival indiano em Moscou.

Você faz uma ponderação interessante sobre o Renascimento italiano, que seria uma combinação de alguns tipos de “soft power”. 

O Renascimento praticamente redesenhou a humanidade e gerou benesses antes mesmo de a Itália existir como país. Isso graças a uma tripla aliança entre religião católica (a partir do papa Martinho 5º no século 15), arte e ciência —que andaram juntas, como no caso de Leonardo da Vinci.

Isso fortaleceu enormemente o Estado italiano e tornou o Vaticano e cidades como Florença (com suas obras renascentistas) paradas obrigatórias no circuito turístico mundial.

Outro exemplo interessante é a Inglaterra, em que o “soft power” da família real britânica —a prática de atividades filantrópicas, a moda com roupas e adereços da realeza— se enfraqueceu pela prática nefasta do “hard power”, especialmente na África colonial. Isso abriu espaço para outro poder suave britânico: a música, na chamada invasão britânica capitaneada pelos Beatles a partir dos anos 1960.

Na comemoração de 50 anos do fenômeno, em 2014, o colunista da BBC Greg Kot disse: “Antes dos Beatles, os britânicos eram invisíveis para a música americana. Depois dos Beatles, você pode até ser perdoado por achar que as bandas britânicas são as únicas que importam. Rolling Stones, The Who, The Kinks, The Animals e até Herman’s Hermits ditavam as regras e mudaram o jeito como os americanos falavam, se vestiam e tocavam rock”. Isso é poder suave.

E o Brasil, tem poder suave? 

Sim, mas ele tem sido ofuscado pelos problemas sociais, econômicos e políticos do país. O poder político, especialmente, tem dificultado muito a efetividade do “soft power” brasileiro, não só cultural como também esportivo.

A Copa de 2014 e a Olimpíada de 2016 poderiam ter sido instrumentos fantásticos para levar o poder suave ao mundo, mas ocorreram na mesma época dos escândalos de corrupção envolvendo os maiores dirigentes do “hard power”.

Ainda assim, o Brasil tem algumas instâncias de “soft power” já bem estabelecidas. O Carnaval é a principal delas.

A revista americana Time publicou em 2016 uma extensa reportagem sob o título “Estes 12 fatos explicam por que o Carnaval do Rio é a maior festa do mundo”, citando 1 milhão de turistas e gastos em torno de US$ 782 milhões só no Rio, em 2015. O Carnaval exibe a imagem de um povo alegre e amistoso, acompanhado pelo mundo inteiro.

Se Carmen Miranda havia posto o Brasil no radar dos EUA, a bossa nova sofisticou essa imagem a partir dos anos 1950, fazendo-o deixar de ser o país selvagem e subdesenvolvido que muitos nem mesmo conheciam.

A biblioteca do Congresso dos EUA considera “Garota de Ipanema” uma das 50 grandes obras musicais da humanidade. “Maria Ninguém (Maria Nobody)” era uma das músicas preferidas de Jackie Kennedy.

A telenovela brasileira também despontou nesse contexto: em 2012, produções nacionais foram exibidas em 92 países, em 33 idiomas. Enquanto uma novela como “Tropicaliente” reforçou a imagem de país exótico, com belas paisagens e cultura forte, outras como “O Clone”, “Salve Jorge” e “Caminho das Índias” conseguiram passar a imagem de uma cultura que se entrelaça amistosamente com outros povos.

“Escrava Isaura” foi vista por 450 milhões de pessoas, graças ao sucesso na China. Luanda teve um enorme mercado chamado Roque Santeiro, e há relatos jornalísticos de que a primeira versão de “Sinhá Moça” interrompeu os conflitos bélicos na Bósnia, na Croácia e na Nicarágua.

Quais os benefícios da substituição do “hard power” pelo poder suave? 

A minha pesquisa deixou claro que, a partir do século 21, mais do que nunca na história das relações humanas, ser amado se tornou mais eficiente e menos custoso do que ser temido.

Se antes o domínio militar preservou e estendeu impérios, hoje um armário cheio de armas não garante pioneirismo econômico, cultural e científico. Amar o estilo de vida americano visto em filmes, séries e clipes traz benefícios muito maiores para a economia e para a sociedade dos EUA do que as ameaças histéricas de Donald Trump.

Os países que tenham instituições e agentes culturais com poder simbólico internacionalmente legítimo terão mais chances de exercer poder duradouro. Eles vão modelar as preferências do mundo.


Donny Correia é mestre e doutorando em estética e história da arte pela USP.

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