Quinta, 11 Outubro 2018 03:00

Com ideia de 'holofraude', apoiador de Bolsonaro faz nazismo virar piada

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[RESUMO] Autor reflete sobre memória ao relatar episódio no qual dois rapazes judeus declaram voto em Jair Bolsonaro (PSL) e falam em tom jocoso sobre o genocídio perpetrado por Adolf Hitler.

“Holofraude”. Foi assim que alguns internautas brasileiros apelidaram o Holocausto, no último mês. O trocadilho, que debocha do genocídio praticado pelo regime nazista, surgiu em reação a um vídeo da embaixada da Alemanha no Brasil, no qual a nação alemã reafirma o compromisso em confrontar os horrores e os ecos recentes do regime de Adolf Hitler.

No vídeo, conclui-se que relembrar as atrocidades de um regime que exterminou 6 milhões de judeus não seria apenas uma maneira de prevenir sua possibilidade de reaparecimento, mas também a constatação de que a memória tende a falhar em momentos-chave.

Sim, a memória tende a falhar. Hoje e sempre.

E, no último sábado (6), véspera do primeiro turno, em um clube judaico de São Paulo, presenciei sua falência.

Um instituto de pesquisa acabava de divulgar as novas intenções de voto para presidente. Satisfeito com as boas novas, um rapaz judeu se aproxima de seu amigo também judeu, e eu, o terceiro judeu, só não escutaria a conversa se fosse surdo:

“Chegamos a 42%!”, anuncia um deles. “É o mito!”, comemora o outro. Um senhor, também judeu, se aproxima com prudência: “Vocês vão votar no Bolsonaro já no primeiro turno?”. A resposta, em tom jocoso, foi imediata: “Lógico! Não importa o que vier: nazismo, fascismo... A gente tem que tentar!”. E completa: “Fora isso, o mito vai ganhar! E é melhor ficar do lado da Gestapo, da SS, da polícia nazista, do que ficar do lado perdedor”.

Risadas. O senhor se cala. Eu, atordoado, tomo distância por instinto. “Falo ou não falo?”, penso. “E, se falo, o que falo?” De um lado, certa obrigação moral, uma dívida histórica com aqueles que lutam contra regimes genocidas. De outro, o hábito resignado de quem se esconde atrás velho “não adianta responder”.

Olho novamente e tento entender, por um exercício fantasioso de leitura facial, qual dos dois poderia ser mais razoável para uma conversa. Passados dez minutos, um deles se despede. Decido segui-lo até a saída.

“Olá, boa tarde. Escutei o que vocês disseram sobre o nazismo e me senti desrespeitado pela história de minha família e de todas as famílias que circulam por aqui. Queria pedir que não repetisse esse tipo de discurso nos espaços comuns do clube.”

Confesso que tinha passado os minutos anteriores ensaiando o discurso, mas, se fosse transcrevê-lo aqui tal como realmente saiu de minha boca, talvez tivesse que adicionar pausas, reticências e uma leve tremedeira contida com esforço.

Ele me encara, fica dois segundos em silêncio e responde. Eu rebato. Somos civilizados, por enquanto. Ficamos nessa por uns dois minutos e, entre réplicas e tréplicas, estes foram os seus cinco argumentos:

1) “Era brincadeira, faça-me o favor.”

O primeiro argumento é um clássico: o humor sempre foi mesmo eficaz em abafar a gravidade das palavras. A piada exime o falante da responsabilidade pelo o que é dito, ajuda a criar laços de identificação pela aparência de leveza e faz daquele que se assusta com o conteúdo do discurso —no caso, eu— um paranoico. “Eu sei que era uma brincadeira, mas não achei graça”, foi tudo o que consegui responder.

2) “Eu não sei você sabe, mas eu sou judeu.”

Nesse momento, ele tenta se autorizar ao discurso. Ou, melhor, tenta reforçar que essas palavras jamais poderiam ter o peso de verdade. Afinal, como um judeu teria algo em comum com um regime que custou a morte de seu povo? Nada como o tempo e a distância para tirar o peso da história. “Eu sei. Eu também sou. O que torna a brincadeira ainda mais grave e ofensiva, inclusive, à sua família”, respondo.

3) “Você acha que, se eu realmente acreditasse nessas coisas, eu votaria nele?”

Esta é a resposta que mais me interessa, talvez por identificação. Somos dois playboys e faz parte de nossa categoria minimizar os riscos do mundo. Vivemos em uma bolha protegida: a violência é rara e o ódio só existe quando somos nós a proferi-lo.

Opressão, coação, intimidação são conceitos abstratos, com os quais é difícil se relacionar porque vivem à distância, no universo paralelo dos livros de história ou nos relatos que os empregados de nossas casas trazem da periferia.

É fato: jamais vivemos o ódio nem seus efeitos como realidades possíveis. Nisso ele é sincero: provavelmente não acredita nessas coisas nem vislumbra sua possibilidade. Não respondo a este argumento. Apenas me calo como cúmplice.

4) “Voto em quem eu quiser, não é?”

O sujeito agora se dispõe a jogar o jogo da democracia: se diz livre para julgar e, de um jeito meio torto, pede que eu respeite a sua autonomia —ainda que a liberdade pela qual advoga seja incompatível com inúmeras declarações de seu candidato.

O rapaz insiste que é livre para votar. Eu respeito e asseguro o meu respeito: “Sim, você vota em quem quiser, mas no momento em que seu voto vira piada de genocídio num espaço comum, neste espaço comum, me sinto no direito de fazer esse pedido. Mas, sim, você vota em quem quiser”.

5) “Pica a mula, vai embora.”

Piquei a mula, fui embora.

Antes, estendo a mão para selar o fim da nossa conversa. É evidente que não quero dar a mão para ele, assim como ele não fazer o mesmo por mim. Nesse momento, percebo: que mania ridícula essa de selar tudo com cumprimento, como se fosse possível e necessário dar uma aparência de harmonia e cordialidade a esse abismo (será tão grande assim?) que nos separa. Mania minha de garoto mimado e acostumado a um mundo de fachada, sem conflitos.

Sim, estendi a mão. Uma moça passa e sugere para o rapaz: “você poderia dar a mão”. Ele faz que não escuta e vai embora. Fico quieto por alguns instantes, mas lembro: às vésperas da consolidação do nazismo, a Alemanha desacreditava que as brincadeiras verbais pudessem se tornar políticas de Estado.

Hitler foi alçado ao poder e quem negligenciou seus discursos, tomando-os como piada, tornou-se cúmplice das consequências. Declarações de políticos, afinal, não são palavras ao vento, mas, sim, compromissos eleitorais.

É, a memória falha. Hoje e sempre. Em Porto Alegre, na última segunda (8), vimos mais um retrato de sua falência: uma moça teve seu abdômen marcado com uma suástica. O delegado do caso afirmou, no entanto, em entrevista à BBC Brasil, que o símbolo não é extremista: “É um símbolo budista, de harmonia, de amor, de paz e de fraternidade”.

Entre piadas e deboches, um Brasil se escancara: vivemos onde canivetes talham a pele em nome do amor e da fraternidade. Respiro. No clube, já sozinho, resolvo ir atrás da moça que interveio no embate. Sinto que preciso ficar próximo de alguém. Agradeço a intervenção, ela sorri e me diz pela fresta de uma porta: “É assim que começam as guerras”. É assim que começam as guerras...


Felipe Arrojo Poroger, cineasta graduado em filosofia pela USP, é diretor do Festival de Finos Filmes.

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